sábado, 31 de dezembro de 2011

New York Diaries, days 4 1/2-6

Ficar fora do próprio fuso horário começa a dar uma baratinada na nossa cabeça depois de um certo tempo. Acordei bem disposta todos os dias, mas lá pelas três da tarde daqui (seis da tarde no Brasil) eu começava a arriar a ponto de encostar na primeira cadeira e ficar com cara de nada (imaginem então como eu estava no dia em que fiquei doente...). Isso atrapalhou um pouco a continuidade destes diários, mas... Estou muito a fim de compartilhar o que vi por aqui e não vou parar de escrever.
Ainda no último dia em que escrevi, à noite, fomos jantar no Oyster Bar, que fica na Central Station, uma verdadeira obra de arte em termos de estação de metrô (mesmo o daqui sendo pior que o de São Paulo).
Para chegar na Central Station, tivemos primeiro de passar por Times Square. Imagine a Paulista com aquele povo que passa lá no final do ano para ver a decoração de Natal. Mas, ao invés da decoração de Natal, coloque no lugar outdoors digitais e lojas gigantescas de tudo o que você puder imaginar. (E ponha uns turistas sem noção fechando as passagens junto da população normal!)

Meus anfitriões me acompanharam todos nesta noite!
E passamos pela famosa rua dos brasileiros, onde tem show todo 7 de setembro.

A Grand Central Station é espetacular. Salões amplos, com lojas grandes e pequenas. E ligações para vários pedaços de NY via metrô, o que faz da estação referência na cidade. Tem até um mercado lindo, com carnes, peixes e temperos frescos, que poderia ser o Mercadão Municipal de SP depois de uma grande reorganização (BEM grande).

Até o Zodíaco estava representado. O arco entre Aquário e Câncer estava desenhado no teto do salão principal (os EUA são um país canceriano). Segundo um guia que falava para um grupo ao nosso lado, esse telhado não se via no começo dos anos 80, naquela fase trash da cidade - estava todo preto, de fumaça de cigarro.

A estrutura do Oyster Bar acompanha a da estação, com abóbadas de tijolinhos, mas com cara de subterrâneo, o que o deixava aconchegante no frio que tava fazendo. Como NY é uma cidade portuária, os frutos do mar são confiáveis. A entrada de ostras empanadas com molho tártaro estava espetacular. Eu encarei camarões com manteiga de alho... Os quais vieram acompanhados de legumes e uma espécie de risotinho na manteiga. Delícia!

No dia seguinte, eu, Pedro e Martín encaramos o Central Park. Foram mais de quatro horas de caminhada, alternada com corridas atrás do Martín, que adora parques e disparava na nossa frente bem antes de percebermos, e com "empurramento" de peso (quando ele dormiu). Antes de entrar no parque, passamos pela Columbus Square, dedicada a Cristóvão Colombo.

Paisagens de inverno bem fora do que o brasileiro está acostumado.
Frio na espinha ao ver o Edifício Dakota, onde John Lennon morava (e pertinho do qual tomou o tiro fatal). O Central Park criou os Strawberry Fields em homenagem a ele, os quais são mantidos pela Yoko Ono.


Nesta praça maravilhosa o Martín correu até não poder mais. Embaixo da escadaria havia música ao vivo e tinha um monte de gente indo para lá. Aliás, o Martín era o terror do parque: todo mundo achando ele lindo e fofo, e ele, que não gosta de estranhos, fazia a cara mais feia do mundo...
Achei esta cena muito new yorker, com alguns prédios bem antigos.
Aqui, uma cena do Reservoir (que, com esse nome, fica parecendo que é a Guarapiranga dessa cidade enorme, o que não é possível pela quantidade de água...)
Almoço no Five Napkin Burger. Eu não quis encarar hamburger e fui de sanduíche de filé de atum com maionese de wasabi.
Depois da soneca da tarde, fui na Barnes & Noble (comprei livros de linguística e astrologia...) e na loja da Apple do Upper West Side e aproveitei para dar uma olhadinha no Lincoln Center. Pena que todos os ingressos para tudo que haveria enquanto eu estivesse aqui estavam esgotados, por total mancada minha. Pena mesmo: o lugar é lindo, deve ser demais assistir um balé ou um concerto ali...
Jantamos em casa comida entregue por um restaurante japonês chamado Obento Delight. Pedi um combinado de 18 (isso mesmo, 18) sushis, alguns de salmão picante, outros de enguia com abacate e outros de atum picante. Esqueci de que estava comendo sushi picante e mandei ver wasabi no shoyu. Ardeu, mas valeu! (Como viram, foi um dia ardido gastronomicamente. E não tirei foto do jantar, porque a fome era tanta que eu esqueci.)
Na manhã seguinte, corri para Midtown (=Centro clássico de Manhattan), para ir ao MoMa e subir no Top of the Rock (um ponto de observação do Rockefeller Center).
O prédio do MoMa parece uma dobradura que vai sendo desfeita - quando você acha que já andou um andar inteiro, eis que aparece uma outra porta que você não tinha visto.

Tinha uma exposição do Diego Rivera, um replay de uma outra exposição dele quando esse museu tinha acabado de ser inaugurado. Complemento ideal para quem viu n coisas desse artista na Cidade do México (incluindo a casa dele e da Frida). Como é proibido fotografar o acervo do museu, mostro o cartaz de rua mesmo...
Mas teve uma coisa do acervo que eu consegui fotografar: um pilar sobre um quadrado, cujas quatro faces tinham dizeres no mínimo interessantes.




Estavam rolando exposições do Willem de Kooning e de arte contemporânea americana - tudo muito bom, mas muita informação para quem vai ver o museu como turista. O ideal é ver uma coisa de cada vez, com bastante calma.
Em pleno MoMa encontro, sem combinação prévia, o outro pedaço da família que estaria em NY: o Renato e a Mariana estavam lá também, recém-chegados do Brasil.
Iríamos nos encontrar na hora do almoço com o Pedro e a Letícia em Meatpacking District para almoçar. Eles voltaram para o hotel e eu fui para o Top of the Rock. Confiei na opinião do Pedro de que a vista de lá é melhor do que a do Empire State, especialmente porque de lá dá para ver o próprio Empire State.

O prédio é estiloso, bem conservado. E os elevadores são um espetáculo à parte, com teto de vidro, cheio de luzes criando um efeito doido. (E são MUITO rápidos - posso estar exagerando, mas acho que não levou 30 segundos para irmos até o último andar, de número 65.)
O Central Park e o Upper West Side vistos lá de cima.
Vista da rua lá embaixo...
E, de fato, dá pra ver (bem) o Empire State.
Depois do deslumbramento, a volta ao mundo real: caí na Rockefeller Plaza abarrotada de gente e não conseguia achar um acesso para a linha do metrô que me serviria para ir até Meatpacking. Depois de um piti básico e de o Pedro me orientar por telefone, cheguei mega atrasada para o almoço, num restaurante mexicano chamado Móle. Comi um prato feito à base de nachos e pimenta verde (muita pimenta de novo no meu cardápio) e bebi uma margherita ótima. Novamente, a fome me impediu de fotografar o prato.

O bairro não tem absolutamente nada a ver com o Upper West Side e muito menos com Midtown e Times Square - na verdade, achei o bairro mais estiloso e simpático de todos. Saindo do restaurante, fomos conhecer o High Line, um parque projetado modernoso inaugurado há pouco tempo naquela região. Ele é um viaduto-parque! As misturebas arquitetônicas também são engraçadas - prédios mega modernosos convivem ao lado de modelitos bem antigos, sem perder a graça.

Voltamos para casa enquanto o Renato e a Mariana voltaram para o hotel. Eles planejavam ir até Times Square na virada. Eu desisti, porque fiquei atordoada na muvuca na quarta e hoje de tarde.
Mais tarde, eles ligaram dizendo que tinham desistido também, por uma razão prática: era impossível chegar até lá! Estava superlotado e a polícia estava restringindo o acesso. Então eles nos acompanharam no jantar e passaram a virada conosco, como em muitos filmes americanos: vendo a bola da Times Square descer pela TV, comentando os modelitos e os exageros, que parecem próprios desse tipo de transmissão, haja vista a Festa da Virada de Globo... Mas foi divertido!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

New York Diaries, days 3-4 1/2

Ontem foi o dia da 34th Street. Lá fomos eu e Letícia para o centro nervoso de consumo da cidade. Eu estava imaginando que seria um festival de pessoas perdidas nas rodas de hamsters de Donatella Versace, mas até que o povo era sossegado em termos de compras. O que não impedia que a Macy`s estivesse abarrotada de gente. Acho que a galera ia pra lá só pra "ver gente", como diria minha mãe.
A Macy's é tudo o que a Mesbla tentou ser nos anos 80 e não conseguiu: dividida em setores, está cheia de bancas das grandes marcas, que vendem produtos a preços muito reduzidos.
Passamos em várias lojas dessa rua e, de fato, as coisas são realmente muito baratas. Eu não parava de pensar em qual era o problema do Brasil! Só pode ser a carga tributária, que aqui é limitada ao imposto sobre a compra (sobre o valor do preço anunciado é acrescido o do imposto).
Nestes fins de ano, São Paulo fica vazia. Mas New York, ao que parece, está do mesmo jeito de sempre, agitada, com gente correndo com copos de café na mão, indo para o trabalho, e as ruas continuam cheias de carros.
Rodamos por várias lojas daquela rua, passando no meio de gente apressada (o que não é de se estranhar, tendo em vista o frio que tá fazendo aqui). E eu encontrei o meu maior inimigo nesta viagem: o choque térmico. Dentro dos prédios é muito quente por causa dos sistemas de calefação. Mas ao colocar o nariz para fora damos de cara com um vento gelaaaaado, cortante, com o qual não estou acostumada.
Resultado: cheguei em casa zoada, com dor de garganta e febre. Tive que ficar de molho no fim da tarde e à noite. E por isso não houve movimentação neste diário: eu estava tão mole, só queria dormir...
Depois de uma boa noite de sono regada a Tylenol e vitamina C, acordei hoje bem melhor disposta para ir ao Metropolitan Museum of Art. O tempo não estava colaborando muito: -3 graus, com sensação térmica de -9. Era preciso muita roupa pra sair de casa. O Martín, coitado, só para ir ao parque precisou de todos esses paramentos.
Mas Tia Nathalia também teve de se encapotar legal!

Depois de conhecer o metrô, hoje conheci o ônibus de New York. Até que é bem confortável. O Pedro e a Letícia optaram por não ter um carro aqui, já que moram num bom bairro e o sistema de transporte é bem decente (e os prédios não têm garagem, e os aluguéis de vagas em garagens são caríssimos...). Mesmo o metrô, que perde de dez do de São Paulo, tem uma rede bem extensa e quebra o galho.
O Met, como os daqui chamam o Metropolitan, é simplesmente sensacional. Eu e Letícia não conseguimos andar todo o museu (senão teríamos que ficar literalmente o dia todo lá dentro!). Sem falar que a própria arquitetura do museu é um espetáculo à parte. (Na foto abaixo, o museu é esse prédio enorme à direita.)

A Fifth Avenue, onde ele fica, também é chiquérrima e linda.

Mas consegui visitar as partes que, na minha opinião, eram as mais interessantes: a coleção egípcia e a de arte contemporânea.
Quem me conhece sabe que eu sou simplesmente apaixonada pelo Egito Antigo. Ver peças originais desse país e época me deixaram literalmente de boca aberta. Até réplicas de tumbas tinha.

Eu não sabia, mas o Met tem o maior acervo de relíquias arqueológicas do Egito fora do Egito. Não precisei viajar até lá para ver isso:

Eu tirei fotos de praticamente toda a coleção. Não vou cansar vocês com todas elas, mas faço questão de postar as mais legais...
Aprendemos na escola que os túmulos reproduziam as condições de vida do morto. Nessa foto aí em cima está a reprodução de todos os estábulos e armazéns de um faraó determinado do Antigo Império.
Abaixo, um exemplo de escrita hierática, mais simples que os famosos hieróglifos.
Hórus e Anúbis dão cobertura para o faraó...
Vi tantos sarcófagos, das mais diferentes dinastias e períodos históricos, que até enjoei...
E aquele cabelo da Elizabeth Taylor em "Cleópatra" já existia num período muito anterior ao da dominação romana...
E eu fiquei face a face com a estátua mais famosa da minha "ídola"-mor da história egípcia, Hatshepsut. (Pena que a múmia recém-encontrada dela está no Egito...)
Akhenaton, ídolo 2, a missão. Tem pouca coisa dele aqui.
[Pausa dos egípcios... Para o jardim de arte americana e a vista para o Central Park.]

[De volta depois do descanso e do almoço no restaurante do museu: sopa de chili e feijão, acompanhadas de scone de uva passa e suco de laranja...]
"All the old paintings on the tumb... They do the sun dance, don`t you know?"
Passadinha rápida na parte de arte medieval. E a pesquisa perseguindo a pessoa mesmo na semana de descanso... Essa é uma Bíblia portuguesa do século XIV (se não me engano).
A coleção greco-romana também era de tirar o fôlego. Mas acho que vou ter de voltar a ela na próxima visita para vê-la com calma, porque essas coleções antigas exigem leitura dos cartazinhos e sessão remember das aulas de história (nessa hora eu estava começando a ficar lenta e cansada - já estava há quatro horas no museu...).
Mas não pude resistir a uma foto desse Perseu com a cabeça da Medusa!

OK, OK, bora descansar um pouco a cabeça com arte moderna e contemporânea. Nunca vi tanto Picasso e Miró ao vivo como hoje. Vários clássicos juntos! As imagens falam por si mesmas.
Findo o passeio, voltamos para casa, porque estávamos acabadas. Hoje à noite vamos jantar na Grand Central Station, que também é espetacular. Mas ela será assunto do post de amanhã!

Destaques aleatórios
* De madrugada os carros de polícia fizeram um escândalo aqui perto. Mesmo sem trânsito eles têm necessidade de correr com as sirenes ligadas.
* No ônibus, no caminho para o Met, uma senhora super solitária contava a história da vida dela para uma outra mulher (brasileira, por sinal). Parece que é normal acontecer algo do tipo no transporte coletivo daqui.
* O atendente do stand da Lancôme na Macy's foi a primeira pessoa na minha vida que achou que eu era italiana. Normalmente acham que eu sou árabe ou japonesa...
* E o atendente do stand da Givenchy (um moço da República Dominicana) vai para o Brasil no Carnaval e pediu dicas de como "sobreviver" em São Paulo e Rio de Janeiro.
* Mesmo os americanos pareciam espantados com a quantidade de gente que tinha hoje no Met. Nesse frio, a turistada não tinha melhor opção de lazer, penso eu...

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

New York Diaries, days 1-2

Cheguei em Nova York ontem, por volta das 15h daqui. Um dia bem bonito, ensolarado, apesar de frio. Um pôr-do-sol que não devia nada para os da Anhanguera. O céu aqui é limpo, a lua (agora crescente) parece maior e mais visível.
Peguei um táxi "coletivo"que rodou a cidade inteira antes de chegar na casa do Pedro e da Letícia - mas foi legal, porque deu pra ter uma ideia do centro "nervoso"da cidade, onde se concentra a maior parte dos turistas e das lojas enormes. Deu vontade de descer e ficar ali só acompanhando o movimento. Primeira impressão: cidade agitada, movimentada, mas charmosa, estilosa. Calçadas largas, boas pra andar de bicicleta, cheias de gente e de luzes.
O Pedro e a Letícia moram em Upper West Side, um bairro residencial muito bom, com ótimos restaurantes, boa oferta de serviços e bem servido de metrô. A vizinhança é mais ou menos assim:

Andar nas ruas também evoca vários cenários de Seinfeld, com aquele baixo característico que entra nas trocas de cena tocando na cabeça.


Jantamos num restaurante ao estilo belga (!), com muita batata frita e frutos do mar. Olha quem tava fazendo bagunça no restaurante:

Rever o Martín foi o evento do dia, claro. Ele tá muito grande, cresceu muito desde que saiu do Brasil. Mas lembra de todas as brincadeiras e bobeiras da tia.
Hoje, fui fazer o passeio turistão básico da Estátua da Liberdade. Passei quase o dia todo lá e em Ellis Island, onde fica o Museu da Imigração (no prédio em que os imigrantes eram recebidos nos Estados Unidos, no início do século XX).
Fui para South Ferry (de onde saem os barcos para lá) de metrô. Andar de metrô é divertido, não só para ver vários cenários de filme (lembrei especialmente da luta entre Neo e Smith no final do primeiro Matrix) como para observar as pessoas. Impressionante como praticamente todo mundo no trem saca um iPhone enquanto viaja. Pra não dizer que não vi outro telefone, vi um Motorola e dois Blackberries.
Todo mundo anda muito sério e compenetrado. A Letícia tinha comentado que a cidade é repleta de pessoas solitárias. Certamente isso é consequência do fato de que as pessoas são fechadas e interagem minimamente com os outros. Aliás, até acho que sacaram que eu era de fora porque eu sempre desejava bom dia e agradecia. (E o máximo que eu recebia em troca era um "howdy" - "como vai" rápido; "you're welcome" ninguém disse, exceto o moço da farmácia-supermercado que tem aqui perto...)
Ouvi várias vezes no metrô anúncios de que pacotes de aparência suspeita que porventura sejam abandonados nas estações devem ser denunciados à polícia. No passeio Estátua da Liberdade - Ellis Island, tivemos também de passar por uma revista tão rigorosa quanto a de um aeroporto. Obviamente, efeitos do 11 de Setembro. Apesar do evidente trauma ainda presente, não senti apreensão nas pessoas por causa da evocação constante do fato por meio dessas medidas; tive a impressão de ter sentido até um certo conformismo. (Mas só vivendo aqui por um tempo pra ter certeza.)
No passeio tinha fila pra tudo e vento na cara (com chuva de tarde). Dois traslados de barco, um para a estátua e outro para Ellis Island. Cansativo, mas básico; é como ir a Roma e não ver o Bento.

Corajoso foi quem andou ali na parte de cima do barco com o vento que tava fazendo!
Chegar na ilha da Estátua é encarar um festival de patriotismo. Não acho errado ou exagerado. Acho que nós, brasileiros, não valorizamos a nossa pátria, isso sim. Lembro de ter visto no México um apreço semelhante pela história e pelo sentimento de nação, e isso já tinha me chamado muito a atenção porque nunca vi nada semelhante no Brasil.


E esse é o famoso horizonte de Manhattan que vemos em filmes a torto e a direito.
O habitante mais comum da ilha da Estátua e de Ellis Island é a gaivota, num nível semelhante ao da pomba na Praça da Sé. Desvios estratégicos para evitar torpedos desagradáveis eram extremamente relevantes.
O Museu da Imigração é impressionante. Não só o espaço do antigo prédio da imigração é muito bem aproveitado, como também os caras são muito criativos para detalhar determinados trechos de história e entender como as diferentes culturas estrangeiras colaboraram para formar a cultura americana.

O linguista nerd dentro de mim pulou quando viu a Word Tree, na qual há exemplos de palavras do inglês americano de origem estrangeira e a respectiva língua da qual se originaram:
Quando entrei na Registry Room - o pátio em que os imigrantes eram recebidos pelas autoridades administrativas americanas -, vi na hora aquele lugar repleto de pessoas carregando baús pesados e sacos, e não os turistas tirando fotos. A própria narração do áudio que eu levava comigo dizia o quanto o lugar era tenso e deixava o imigrante desconfortável. Tentei pegar em várias fotos algum sinal desse desconforto mas não consegui, de tanto que o lugar estava limpo, encerado e enfeitado.
A sala em que se podia ver a documentação que outrora pertenceu a imigrantes (passagens de navio, passaportes etc.) é linda. Mostruários enormes de documentos preenchiam a sala. Minha cabeça ficava o tempo todo comparando essa situação com a dos imigrantes que iam para São Paulo (fluxo que estudei para a dissertação de mestrado).
Depois de um longo rolê pelo museu, de ver mais fotos e cenários ligados a culturas estrangeiras que vieram para cá, deu fome. Eram três e meia da tarde. Eu e um casal de campineiros que conheci na fila do barco, a Juliana e o Maurício, fomos almoçar perto do Marco Zero. Pedi um hamburger vegetariano... E olha o que veio. Essa é pra você que quer virar vegetariano porque quer emagrecer.
(Estava tudo delicioso. O hamburger é de aveia e grãos.)
Tentamos ir até o Marco Zero e, no restaurante, até encontramos um funcionário do memorial que nos explicou como conseguir os ingressos. Mas a fila para entrar estava gigante, a chuva e o frio estavam aumentando e eu não encontrava de jeito nenhum a rua onde havia a distribuição de ingressos. Então me despedi dos campineiros e peguei o trem de volta para Upper West Side. O Marco Zero ficou pra outro dia.


Destaques aleatórios
*Coisa surreal: a escova elétrica que comprei, que deve ter um motor tão potente quanto um carrinho de autorama.
*Coisa prática: a caneta de esmalte de unha (!!), ótima para uma viajante perua que não quer ter trabalho, como eu.
*Coisa sem noção: os comerciais da Globo Internacional, que estão longe de fazer jus ao país mais criativo em publicidade no mundo.
*Quase tudo se vende em quantidades-balde (=grotescas), desde o removedor de esmalte até o molho de tomate.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O ano tá acabando. E olhar 2011 em retrospectiva é como ver o Katrina se afastando de New Orleans, com a vantagem de que a minha vida tá bem mais inteira que aquela cidade no pós-catástrofe.
A vida de muitas outras pessoas também balançou muito neste ano. Tá ficando lugar comum dizer que este ano demorou pra acabar. Bom, 2011 pra mim foi como aquele remédio ruim pra lombriga de que a gente foge como o diabo da cruz. Desce com dificuldade, mas quando faz efeito é uma beleza.
Mas hoje não quero falar de mim, não. Falei de mim o ano todo. Vamos falar de todo mundo.
Alguém postou na minha timeline do Facebook uma matéria da Istoé sobre anjos. Hmmm, pra valer capa de uma revista semanal o assunto tá rendendo. Tem gente demais correndo atrás disso. Eu não conheço o assunto pra discuti-lo com propriedade (é bem mais complexo do que na Igreja e a versão corrente no esoterismo é bem diferente da do espiritismo de Kardec, que é a que conheço melhor). Mas é óbvio que tem alguma coisa que leva as pessoas a isso, que vai muito além do hype ou da propaganda.
Duvida? Vejamos. O tema é totalmente off-circuit, porque força a pessoa a acreditar em alguma coisa além do racional e do concreto.
Mas por que sair do confortinho atrai? Muita gente pede coisas para os anjos e dá certo. Os anjos podem interferir nas vidas humanas de formas extraordinárias. Ahn, eles são super poderosos... E os meios conhecidos não são mais suficientes.
Não mesmo. Todo mundo está de saco cheio!
Esse foi um dos efeitos coletivos do purgante de 2011. Parece que quiseram que a gente se virasse nos trinta pra parar de acreditar tanto que a vida é do jeito que é, que não tem mais jeito etc.
E, pelo jeito, boa parte do povo que "desacreditou" acha que os anjos são a solução pra isso.
Eu, cá pra nós, acredito que a solução está dentro de cada um de nós e os anjos, assim como as religiões e tantos outros métodos e cultos, são apenas um meio pra alcançarmos o que já temos. Já espoliaram tanto a nossa autoestima e a nossa integração com o universo que precisamos de MUITOS intermediários para encontrarmos a nós mesmos.
Mas de intermediário em intermediário vamos chegando cada vez mais perto disso, um pouquinho de cada vez. Só não vale achar que o intermediário é a resposta definitiva. Senão vamos substituir a atual ordem pela, digamos, ordem dos anjos, com as pessoas igualmente submissas a algo que elas não entendem e perdidas de novo nas mesmas catacumbas de antes...
(E dá-lhe remédio pra lombriga outra vez.)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Num post de fins de outubro eu tinha exposto as minhas necessidades mais iminentes de transformação pessoal, lembram? Hoje li esse post e cheguei à espantosa conclusão de que alguma coisa aconteceu: eu tô diferente.
Mas demorou pra acontecer algo. Foi só na semana passada que o revertério veio. Eu comecei a sentir um desejo de liberdade tão grande que simplesmente comecei a largar tudo que me amarrava, que me fazia mal. (É impressionante como a gente guarda sentimentos e pensamentos ruins como uma roupa antiga que achamos que vamos usar um dia, né não?) Não foi preciso nenhum exorcismo, nada enfático que formalmente expulsasse meu próprio demônio de dentro de mim. Simplesmente larguei. E pronto.
Claro que tive de passar por uma adaptação à nova situação. Me deparei com tanta liberdade que não sabia direito o que fazer com ela. De repente, tudo se tornou possível! As ideias mais cabeludas começaram a fazer sentido e os meus desejos mais pirados começaram a parecer exequíveis.
Eu me senti tomada por uma espécie de transe, em que eu simplesmente seguia e a vida não tinha nenhum obstáculo - ou pelo menos esses obstáculos não eram tão apavorantes como eram antes. Eu ri de tudo e retomei o prazer de viver, o joie de vivre, que tinha ficado amassado que nem nota de 2 reais no bolso da calça. Voltei a saborear o meu bom e velho cabernet antes das refeições. Voltei a ouvir música no volume máximo no carro (de Stravinsky pra cima!). Olhava para a pilha de livros emprestados para os trabalhos da pós e sentia não o pânico por ter muita coisa pra fazer, mas prazer por estar envolvida numa pesquisa que amo e ansiedade para mexer naquele material.
Senti várias outras coisas, mas falar de todas elas ia aporrinhar os leitores. Achei válido apenas salientar esse impulso tão forte e tão, digamos, animador, que me lembrou que o mundo é grande e a vida é bela e cheia de possibilidades. A minha rotina, o lance de viver na ponte rodoviária SP-Vinhedo, a grande quantidade de demandas e trabalho, tudo isso foi sendo colorido por uma alegria muito grande, que começou com um simples ato de laissez-passer.
E os próximos capítulos, o que me reservarão? Sei lá. Sinto algo tão bom que estou numas de curtir o presente. E seja o que Deus quiser ;)  

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Semana passada, num evento de uma editora top-of-the-pops nacional, assisti a uma palestra do Amós Oz. O velhinho é espirituoso e articulado... Entre várias coisas interessantes, ele mencionou um dado que me chocou: mais da metade da população de Israel é a favor da divisão de territórios com os palestinos.
Surpresa! Então não são só os palestinos, o Obama e o Sarkozy que acham Netanyahu um porre. Não sei se os israelenses adotaram essa posição só porque não aguentam mais homens-bomba. Mas, enfim, vi que não é só no Brasil que não se dá trela para a voz do povo.
Mas não foi isso que ficou martelando na minha cabeça. Esse dado se ligou diretamente a uma discussão recente entre a minha turma do moribundo Google Buzz: as pessoas estão mesmo muito raivosas, muito além do normal, ou é só impressão?
No caso do hômi de Israel, a raiva é o método de negociação dele. Pra mim isso é diferente da violência, historicamente o meio mais rápido de sufocar adversários. A raiva carrega consigo um componente de orgulho pessoal, enquanto a violência é mais animal, reativa. Penso que Netanyahu quer mesmo é justificar para os palestinos a sua "superioridade" enquanto "dono" da Terra Prometida, e fica fulo da vida quando ouve que deve ceder.
Peguei um exemplo em escala manchete de jornal, mas reparem nesta semana nas pessoas por aí. Nem vou falar de trânsito porque é hors concours. Mas na loja de doce da esquina, por exemplo, neguinho não quer saber se a atendente deu o troco errado porque teve de dar atenção a outro cliente: ela é burra e incompetente, e pronto. A minha visão prevalece sobre a sua e que se dane a civilidade! O sujeito interpreta que dentre os direitos de consumidor se incluem os direitos de não negociar e de não pedir desculpas - orgulho de consumidor ferido.
É como se, apesar de todo o progresso social que fizemos, de repente as pessoas quisessem voltar a ter pensamento linear, focando apenas em si mesmo, esquecendo do outro.
Nessa discussão que tive com a galera do Buzz, eu tinha chegado à conclusão de que o medievalismo nunca nos deixou. Acrescento que apenas o camuflamos, e que ele está aparecendo com força agora, não sei bem porque. Vai ver Deus quer que o eliminemos de vez, ao invés de ficar empurrando a sujeira pra baixo do tapete.